repetir o passado
Eu vejo um museu
de grandes novidades"
Cazuza - O tempo não para
Conhecimento adquirido e conhecimento praticado, não sei se seriam expressões corretas, mas que as utilizo para uma melhor compreensão daquilo que escrevo. Em nossa formação vamos adquirindo um conhecimento por meio de leitura de textos, estruturas de currículo, planos de aula e etc. A prática consiste em colocar em funcionamento todo este conhecimento e se torna fundamental ao professor a vivência em sala de aula. Enquanto a universidade nos possibilita um contato maior com a teoria, a sala de aula nos proporciona o contato com a práxis e sem ela não haveria o porque da teoria. Até que ponto teoria e prática convivem em harmonia? Qual a postura do professor em relação à sua prática e de que forma coloca em funcionamento seu aporte teórico?
No texto aparece a expressão Knowledge e nos dá duas interpretações distintas ou complementares. A primeira seria a experiência adquirida em sala de aula e transformada em programas de formação de professores e que depois possam servir de base à prática docente. A segunda, que além de englobar os conhecimentos adquiridos durante a formação, levam em conta a cultura pessoal e profissional, a socialização escolar, isto é, um aprendizado holístico. Vejo as duas interpretações como complementares, sendo que a primeira sofre riscos acerca da postura do professor em relação ao seu objeto, o aluno. Seria como se fosse um cientista propondo algumas experiências em busca de resultados, uma forma de ação e reação. Para que estas experiências e pesquisas e seus resultados sejam pertinentes há um detalhe no processo, se é assim que pode-se chamá-lo, científico, é que o cientista, neste caso o professor, também está envolvido no processo, sendo assim, observador e objeto são passíveis de hipóteses, mas alheios a reprodutibilidade. Não há como reproduzir as experiências, pois toda e qualquer formação docente e escolar estão sujeitos ao tempo. Um acúmulo de experiências transformam, mas não se reproduzem com exatidão. No entanto, ainda pode-se encontrar professores em busca de padrões, programas e fórmulas para aplicar em aula, mas o tempo neste caso é implacável, ele não para e pode tornar absoleta qualquer regra e padrão.
O ambiente escolar é o espaço em que o tempo flui e renova os conhecimentos, principalmente no que se refere a sua aplicabilidade. Conforme o texto: "...sua integração e sua participação na vida cotidiana da escola e dos colegas de trabalho colocam igualmente em jogo conhecimentos e maneiras de ser coletivos, assim como diversos conhecimentos do trabalho partilhado entre os pares, notadamente a respeito dos alunos e dos pais, mas também no que se refere a atividades pedagógicas, material didático, programas de ensino etc" Mesmo que pesquisas produzam um bom material teórico, resultado de observações e também experiências de dentro de sala de aula o texto aponta para um fato importante e neste sentido busca chamar a atenção do professor no uso destas ferramentas "... a proliferação dessas tipologias simplesmente deslocam o problema e torna impossível uma visão mais compreensível dos saberes dos professores como um todo" A construção de saberes acumulados não descartam teorias, mas as encharcam de vida e flexibilidade.
Ao mesmo tempo que o texto ressalta a experiência anterior à experiência docente, a construção de todos estes esquemas, hábitos, regras e assim por diante, dá-se em dois espaços fundamentais: a família e a escola, e estes dois imersos na sociedade. São experiências primeiras e os seus esquemas resultantes, de uma forma ou outra, acompanham a vida. Ao retornar à escola, agora como professor, todo e qualquer esquema estará sujeito a uma revisão, não em termos só de transformação, mas de um lembrar-se, nem sempre consciente, mas de uma forma ou de outra coexistirá com a experiência docente e o aporte teórico, num constante movimentar-se.
EM RELAÇÃO ÀS PESQUISAS
As pesquisas de Raymond, Butt e Yamagishi em 1993 na formação de futuros professores no Canadá apontam para importância da escola na formação, não somente do professor, mas do cidadão em geral. Não obstante, observa as conseqüências resultantes de uma educação voltada ao conceito de depositar o conhecimento e encontrar padrões eficazes para assimilação do conteúdo. Pode-se perceber que tais alunos-professores descartam a participação do aluno no processo de apreensão do conhecimento, como se o professor tivesse a tarefa, tão somente, de passar o conteúdo, e para tanto, tivesse que usar métodos verticais de educação. Estar-se-ia diante de uma convenção de professor advinda da própria condição de aluno. Pode-se perceber uma transposição de experiência de aluno para professor.
Na pesquisa de Lessard e Tardif de 1996 a 1999, além de encontrar algumas similaridades em relação à pesquisa anterior, encontra-se a tradição como escolha da profissão docente, principalmente entre as mulheres. Este fato histórico, é facilmente observável, inclusive no Brasil, visto que o magistério era uma forma de independência para mulher que na época gozava de pouca liberdade e acesso à outras profissões. Atualmente este quadro sofre pequenas mudanças com a inserção de homens em disciplinas que antes eram exclusivas das mulheres. No entanto, algumas máximas se perpetuam como “ensinar é um dom”, “ensinar é uma arte”, “para ensinar deve-se gostar de crianças” enfim, educar passa a ser um sacerdócio. Neste sentido, os autores apontam para alguns problemas decorrente destas convenções, visto que elas contribuem para a manutenção de uma estrutura obsoleta em sala de aula. O aspecto positivo é a predisposição à carreira, porém ela deve passar por toda outra construção que é a dos saberes profissionais.
O texto assinala uma primeira fase do professor recém chegado à profissão: da visão idealista para a realidade do trabalho. Conforme o texto, percebe-se um choque, percebe-se desilusões, encontram-se dificuldades. Ao menos, na universidade, somos devidamente avisados. Não posso deixar de recordar, em uma visita de observação a uma escola, na sala de professores, as primeiras perguntas foram: Queres lecionar? Sabes quanto ganha um professor? E outras observações acerca dos alunos tais como: - Fulano de tal está doente... Enfim, conforme as palavras do texto o professor se torna “...ama-seca de uma turma de alunos cativos...” (Edy 1971 p. 185). Uma segunda fase em relação às normas internas da escola e a terceira em relação ao alunos.
Autores como Obram 1989, Vonk 1988, Griffin 1985, Feiman Nem ser e Remillard 1996, Lortie 1975, Gold 1996, Zeichner e Gore 1990 ressaltam outras fases como a da Exploração compreendendo de cinco anos a sete anos de profissão. Nesta fase o professor estaria lhe dando com as regras do jogo dentro da estrutura escolar. Estas regras envolvem, tanto os colegas de profissão, como também os alunos. A segunda fase envolve uma mudança na percepção de sua profissão estando mais atento aos processos de aprendizado do aluno, e por sua vez, mais seguro em relação a si mesmo. O texto aponta que todas estas fases e o tempo que cada uma acontece podem sofrer variações conforme as condições de trabalho.
Por fim, vencida estas fases o autor observa uma rotinização dentro da escola, ao mesmo tempo, que observa a complexa rede que envolve o ambiente escolar. Esta rede envolve vários aspectos como a disciplina, a estrutura curricular, a interface entre escola e sociedade, entre professor e família do aluno e pode-se encontrar outras tramas intrincadas neste processo. A rotina seria a melhor maneira de custumizar esta rede? Conforme o texto, a própria formatação da estrutura escolar sugere uma rotina como forma de garantir um modelo mais cômodo, mas que a personalidade do professor é preponderante quando há rotinização.
CONCLUSÕES
Concluo que o processo de aprendizado envolve tanto o aluno como o professor. Cada vez que entende-se mais a profissão docente também entende-se a complexidade das relações que acontecem dentro do ambiente escolar. Com certeza, surgem muitas dúvidas, surgem alguns percalços, um tanto mais complexos que outras profissões, pois o processo é de envolvimento. Entre outras conclusões, que estão expostas dentro do texto, vejo a importância de desconstruir algumas convenções acerca da nossa prática docente e nossa escolha por esta profissão. Esta desconstrução auxiliará a sociedade a compreender os desafios do professor e a importância desta profissão à sociedade. Ser professor não é sacerdócio, não é dom, mas nos aproximam do lado mais sensível do ser humano, talvez este fato gere algumas confusões, mas não estou aqui defendendo uma estrutura rígida de educação como se fosse uma fábrica, uma educação bancária. Defendo um envolvimento da sociedade no processo de educação, mas não intervencionista como está se dando ultimamente. A escola não fabrica pessoas, ela é a primeira oportunidade de nos reconhecermos como sociedade. A história constrói-se acumulando conhecimento e pondo este em movimento, juntamente com o tempo, por isso mesmo a escola se perpetua como espaço construído através dos tempos. Neste espaço, “ o tempo não para”, a nossa construção docente não para.
Olá Charles,
ReplyDeleteótimas reflexões!
Acredito que tocastes em postos importantes, principalmente quando te referes ao movimento do conhecimento, movimento este que se faz presente nas relações, no tempo, espaço, que são continuamente transformados. Como então seria possível agarrar-se a uma forma fixa? Os conteúdos, os planejamentos, os "métodos", as experiências não fazem parte dessa transformação? Acredito que fazem. Cito palavras tuas: "o tempo não para, a nossa construção docente não para".
Abraços, Anelise.
Principalmente em nossa profissão
ReplyDeleteabraço
Oi Charles,
ReplyDeleteretornando ao teu espaço de registros e diante desta reflexão vou aproveitar um "gancho" e deixar uma questão para pensares e avançarmos na discussão: Como tu mesmo diz e a Anelise já destacou, "o tempo não para, a nossa construção docente não para"...e como ficam os saberes docentes diante das rápidas mudanças decorrentes da disseminação das tecnologias de informação e comunicação?
Seguimos...
Um carinhoso abraço e até breve!